Capitulo 03 – Dividir o espaço
E M M A
Sexta à noite, a sala estava uma bagunça, eu tinha praticamente espalhado todo o conteúdo das caixas por ali. Depois de muito revirar as lembranças e até chorar com a ajuda da cerveja, lá estava eu, largada no meu sofá com a televisão ligada nas alturas passando clipes que eu já nem conhecia, long necks de cerveja vazia na mesa de centro e um prato com um sanduiche comido pela metade.
Rolando a tela do celular eu tentava encontrar algo de bom na imensidão da internet que naquele instante estava tão pequena que mais parecia um nada, entrei e sai dos aplicativos e quando ameacei em largá-lo uma chamada foi recebida.
- Boa noite minha filha!
- Oi pai.
- E ai, me conta! – ele estava animado – gostou do apartamento? Esperei você me ligar para contar e nada, passeio dia todo ansioso pelo seu retorno! Viu a banheira vitoriana? E a sacada com o sofá redondo suspenso para suas leituras? E o ateliê? Me fala do que achou do ateliê! – ele perguntou tudo de uma vez o que me fez rir de leve com sua animação, sem dúvidas ele estava muito mais feliz com tudo aquilo do que eu.
- Eu amei pai, amei tudo! E o ateliê, ele é perfeito! Você realmente pensou em todos os detalhes.
- E as caixas que você me pediu, Leroy disse que as deixou na sala, estão todas aí?
- Sim, está tudo aqui.
- Bem, eu estou muito feliz com sua volta e com seu ingresso na Swan Mills. Essa semana arrumando um tempinho eu levo um vinho aí na sua casinha nova para gente brindar seu lar.
- Tudo bem.
- Tem mais uma coisa…
- Lá vem…
- Sei que está em cima, na verdade as coisas foram meio corridas nessa sua volta, achei que teria mais tempo, mas confesso que acabei me enrolando, então eu também estou te ligando para dizer que seu jantar de comemoração no ingresso da Swan Mills será amanhã à noite lá em casa.
- Ah não pai, não!
- Por que não filha?
- Não, por favor, nada desses jantares formais e chatos.
- Filha… – ele soltou o ar antes de prosseguir – Esses jantares fazem parte do trabalho… nem sempre são divertidos, mas são necessários. – eu bufei de leve.
- Tá… mas tem como não ser amanhã? Podemos adiar para o outro final de semana?
- E por que não amanhã? Tem algum compromisso?
- Não pai, não é isso… eu acabei de chegar, quero me situar, arrumar minhas coisas, ter um tempo para me preparar para segunda, por favor – eu pedi como uma menina – adia para semana que vem, aí você também tem mais tempo de se organizar e fazer desse o melhor jantar de todos.
- Ok… – aceitou a contragosto – sábado que vem sem falta!
- Sim senhor – imitei um soldado.
Passei todo o sábado organizando minhas coisas no apartamento, por mais que meu pai tenha feito um excelente trabalho, aquele lugar precisava de um pouco mais de arte, ele precisava ser mais como eu para que eu o sentisse como um lar.
Fiz o que pude com o que tinha, com o passar dos dias eu compraria algumas coisas e trocaria outras, mas nada de mais, já que o projeto tinha sido realmente feito pensado em mim.
Por mais que meu pai não tenha me apoiado na faculdade de artes, quando eu encontrei o ateliê todo equipado eu fiquei encantada… e aquilo me mostrava que de certo modo mesmo ele querendo controlar minha vida, querendo que eu siga seus passos ele não era um ditador malvado pronto para aniquilar todos os meus sonhos.
Eu acreditava que se eu me mostrasse tão boa quando a queridinha Regina, ele entenderia que meu caminho não era o mesmo que o dele e que assim acabaria apoiando minhas escolhas.
No domingo eu tentei relaxar, dei uma volta na cidade, tomei um sorvete enquanto assistia o pôr do sol no Lago Oeste e voltei para casa ansiosa para o dia seguinte.
Dormi muito mal naquela noite, acordei muitas vezes, e tive sonhos estranhos, meu pai havia marcado comigo as 9h da manhã, mas desde as 5h eu estava de pé.
Aproveitei aquele tempo para praticar um pouco de yoga, relaxar não só o corpo mas também a mente.
Lá pelas 7h tomei um banho na minha banheira perfeita, me enrolei no roupão e tomei um café da manhã reforçado, pouco antes das 8h resolvi ir em busca do que vestir.
Eu não era o tipo de pessoa que demorava tanto para se arrumar, eu normalmente tinha o look montado em minha mente e pronto, sempre ficava ótimo, mas naquela segunda as coisas estavam bem diferentes.
Depois de provar quase todas as minhas roupas eu olhei para uma das caixas de papelão que eu tinha colocado ali em meu closet e bum! A melhor ideia do mundo me surgiu.
Eu não teria a presença física de minha mãe naquele primeiro dia, eu não receberia seu beijo de boa sorte, nem sua ligação no meio da tarde para saber como as coisas estavam, mas eu poderia ter algo dela comigo e aquele algo era a única roupa formal que ela teve e que eu fiz questão de guardar. Não era bonita e muito menos fazia meu estilo, mas isso não importava já que eu ia me sentir abraçada por ela todo o tempo.
Fiz uma maquiagem natural, deixei os cabelos soltos, me olhei pela última vez no espelho e sorri satisfeita ao ver minha mãe em mim.
Era exatamente 8:52 quando estacionei o carro na lateral do casarão, peguei minhas coisas e fui em direção a porta da frente. Ao entrar, torci mentalmente para que meu pai já estivesse em sua sala, não queria dar de cara com Regina sem antes ter encontrado ele. Para minha sorte sim, meu pai estava sentado em sua mesa que me recebeu alegre e sorridente, me abraçou e já foi me desejando boas-vindas.
- Mas minha filha, que roupa é essa? – me analisou dos pés à cabeça ao reparar o que eu estava vestindo.
- Gostou? – eu sorri como uma menina travessa – era da minha mãe, quis ter um pouco dela nesse primeiro dia.
- Nunca que eu vi Mary usar algo assim, mas se eu fosse imaginá-la usando roupas formais, acho que esse terninho com cara de brechó sem dúvidas seria completamente ela.
- Não é?! – achei graça - Essa aqui era a única coisa formal que ela tinha… e sim, provavelmente ela comprou do brechó da igreja… acho que a vi usar umas duas vezes apenas.
- Ficou parecida com ela – ele se aproximou segurando em meus ombros, me olhou por inteira outra vez – eu gostei – sorriu ao encarar meus olhos – que o amor que Mary tinha por você lhe traga muita sorte nessa sua nova fase – me abraçou e eu o abracei de volta.
- Bem, já está bom… – reclamei ao sentir que ele não queria me soltar, o que o fez me largar dando um passo para trás com aquele sorrisinho feliz.
- E aí pronta para o seu primeiro dia na Swan Mills?
- Não. – falei séria, mas meu pai riu.
- Vai ser incrível você vai ver! – ele foi em direção a sua mesa – deixa só eu enviar esse e-mail – sentou-se em sua cadeira já mexendo no computador – é só enviar mesmo – seus olhos na tela do munitor – prontinho, demorou nem cinco segundos – pegou seu celular na mesa, levantou e foi em direção a porta – vem, vamos – me chamou ao abri-la – vou te levar até sua sala provisória.
Meu pai caminhou comigo me mostrando os ambientes bem por cima, até mesmo de uma forma meio rápida, achei um pouco estranho já que ele adorava toda aquela coisa de revelar tudo nos mínimos detalhes, mas talvez ele o fizesse depois.
Ao passarmos por todos os ambientes, lá do outro lado do casarão David bateu duas vezes em uma porta antes de abri-la com cuidado.
- Posso entrar? – ele falou colocando a cabeça para dentro, mas logo escancarou a porta entrando por completo e me dando passagem. – Uau! Está magnífica! Teve um bom final de semana, Regina? – o nome Regina foi dito no mesmo instante em que entrei e a vi de pé próxima a sacada.
- Não como eu gostaria – respondeu com um sorriso levemente debochado.
Não era novidade para mim Regina ser uma mulher bonita, mas ali, naquele instante, ela não era só uma mulher bonita, ela estava absurdamente maravilhosa, usava um terninho vermelho, que dava ainda mais vida a seus lábios pintados da mesma cor já em seu rosto a maquiagem era sutil, seu cabelo escovado, seus acessórios dourados e seus saltos lhe dava um ar de completo poder, como a de uma mulher inabalável e inalcançável.
Se sua intenção era de me intimidar, ela havia feito um bom trabalho… digo naqueles primeiros segundos, porque eu tratei de me recompor e todo o medo que eu poderia sentir se transformou em mais força.
Seus olhos cruzaram os meus, mas ela logo me varreu de cima a baixo com o olhar de desprezo, mas eu pude sentir que grande parte dele era por conta das roupas de minha mãe, o que me fez achar graça por já ter começado a irritar aquela doida que me odiava sem me conhecer.
- Trouxe Emma para você! – ele falou animado ao me puxar levemente pelo braço fazendo-me ficar ao seu lado, já eu senti meu coração dar uma balançada de nervoso, como assim me trouxe para ela?
Eu sabia que iria trabalhar com Regina… que a ideia era que eu, meu pai e ela seriamos juntos os cabeças da Swan Mills, mas eu não achei que eu ia ser simplesmente dada de bandeja para ela.
- Então o treinamento começa agora – ela mais afirmou do que perguntou ao caminhar lentamente em direção a sua mesa.
Outra coisa que não sabia era que ela mesma iria me treinar, achei que seria meu pai e que vez ou outra ela me passaria algumas informações, mas nada mais que isso.
- Exato, minha querida. A partir de agora, Emma é toda sua, vai dividir esse espaço aqui com você e tenho certe – Regina o cortou.
- Dividir o espaço comigo? – perguntou séria.
E tinha como ficar pior.
- Exatamente.
- De jeito nenhum! – Regina reclamou.
- Como você quer que ela aprenda com você se não vão trabalhar juntas?
- Aprendendo no espaço dela.
Aquele seu jeito de falar de mim como se eu não estivesse ali me incomodava, quem ela achava que era para sempre me tratar como um nada, caramba eu era a filha do socio dela que era também marido da própria mãe, acho que o mínimo ela poderia tentar, até Cora conseguia me “tratar bem” na frente das pessoas.
- Sim ela terá o próprio escritório, mas nesse período de aprendizado ela vai dividir sua sala com você, assim como você dividiu comigo, ou não se lembra?
- Era diferente o casarão nem tinha passado pela reforma ainda.
- Regina – ele a chamou com mais firmeza – não haverá discussão aqui, sua sala é grande, essa sua mesa é enorme, cabem umas três pessoas trabalhando aí tranquilamente e quanto mais perto Emma estiver de você mais rápido ela vai aprender tudo, quando você ditar que ela está pronta, ela se muda para o próprio escritório e aí você tem de volta toda sua privacidade. – ele olhou para mim – Bem e você minha filha logo terá seu espaço, esse tempo de experiência passará bem rápido.
- Há mesmo necessidade disso? Não poderia ser você a me ensinar?
- Regina é muito melhor do que eu nisso, filha. – ele ficou de frente para mim e me segurou em um dos ombros fazendo-me também virar – ela é meio brava mas fique tranquilo que ela não morde. – seu tom brincalhão fez Regina bufar de leve, mas não ousei em olhar para ela.
- É pai, mas eu mordo – falei séria e meu pai riu sabendo que era brincadeira.
- Então cuidado você heim Regina! – ele me soltou voltando a ficar de frente para ela.
- Não, sério – chamei a atenção dele – isso é mesmo necessário?
- Sim, Regina vai ser sua mestra nesse período de dois meses e sim vocês vão dividir essa sala. E não tem nada que me fará mudar de ideia. Por que sinceramente, meninas? Além de ser muito bom para a Swan Mills também vai ser bom para vocês, toda essa tensão esquisita que emana de vocês precisa acabar, não tem como essa Construtora crescer sem esse casamento acontecer.
Eu olhei rapidamente para Regina que me olhou no mesmo instante, de todos os olhares que já trocamos aquele foi completamente diferente, porque juntas reviramos os olhos, mas não uma para outra e sim com uma certa cumplicidade pela fala de David. Eu sabia que ambas discordavam dele e que aquilo não significava nada para uma boa relação entre nós, mas eu fiquei feliz por termos partilhado do mesmo sentimento.
- Bem, eu vou deixar vocês, mas antes… Regina… tem como você entrar em contato com aquele seu talentoso amigo marceneiro que fez nossas mesas para fazer a de Emma? – ela afirmou a contragosto – ótimo, eu amo o trabalho dele, inclusive queria encomendar umas peças pro chalé, mas depois eu vejo isso. – ele deu meio passo em direção a porta mas se voltou para ela – ah, mas uma coisa, depois faz um tour na Swan Mills com a Emma que eu não pude, vou precisar sair e acho que não volto mais hoje.
- Sim senhor. – respondeu ao sentar em sua cadeira. – mais alguma coisa? – ele negou a fazendo afirmar uma única vez e se voltar para o munitor.
- Boa sorte querida. – ele me beijou a testa e se retirou.
Já eu fiquei parada, de pé, no meio da sala, sem saber exatamente o que fazer.
- Vai ficar parada ai senhorita Swan? – me olhou por cima do munitor – pegue uma cadeira e coloque aqui ao meu lado.
- Pode me chamar de Emma.
- Eu sei que sim, mas prefiro manter o profissionalismo aqui.
Soltei o ar na tentativa de não me irritar, era apenas o primeiro dia, se eu me deixasse levar toda vez eu não chegaria nem no final da semana.
Peguei uma cadeira do outro lado da sala e a levei até a enorme mesa de madeira onde Regina estava, me acomodei e logo coloquei minha pasta sobre a mesma.
- Como é o primeiro dia eu não sabia muito bem o que trazer – comecei a mexer na pasta - então eu trouxe meu notebook… o tablet, um caderno – olhei mais a fundo - um estojo e minha trena.
- Fica em sua preferência onde fará suas anotações. – respondeu sem tirar os olhos da tela, se prendeu ali por mais alguns segundos até que suspirou e girou levemente em minha direção – Seu pai infelizmente só me anunciou sobre tudo isso na sexta-feira, então por mais que eu tenha trabalhado bastante no final de semana eu ainda não consegui terminar a apostila com todas as informações que precisará saber, enquanto eu não a finalizo eu vou te explicando o básico nesses primeiros dias.
- Ok…
- Bem, vamos as regras já que vou ter que dividir meu espaço com você – eu apenas assenti – Nada de atraso, nada de visitinhas pessoais, nada de bagunça, sujeira, música… e é extremamente proibido fazer minha sala de refeitório, para isso nós temos um todo equipado que logo logo te mostro. Estamos entendidas?
- Sim senhora.
- Perfeito… continuando, eu não sei se David lhe falou, mas o meu trabalho aqui é muito mais administrativo e de supervisão do que de arquitetura, design, paisagismo e tudo mais. Eu até executo alguns projetos, mas são muito selecionados e normalmente estão bem mais a cima dos nossos valores tradicionais – fez uma pequena pausa – bem resumindo como a Swan Mills funciona… os clientes são recebidos pela equipe de captação lá eles fazem o briefing que vem direto para mim, ai eu analiso se vamos pegar ou não, ficando com ele o briefing é mandado para a equipe correspondente onde o chefe de equipe escolhe qual o profissional o executará, com isso o profissional estuda o briefing faz suas anotações e o devolve a mim com os valores e tudo mais, ai eu o examino novamente… estando tudo correto eu mando de volta a equipe de captação para encaminhar ao cliente… o cliente aprovando vai direto ao profissional que executará o projeto… bem essa parte você deve saber, como funciona a execução – eu afirmei – bem, mas o que você precisa saber é aqui tudo passa por mim, antes, durante e depois, os projetos que realizamos só são aprovados de serem feitos se tiverem a minha assinatura, então se você for a uma obra e estiver com um projeto nosso em mãos o mestre de obras só vai dar início se a minha assinatura estiver ali, então é de extrema importância você guardar bem isso, tudo passa por mim e é assinado por mim, se não tiver minha assinatura corre o risco de acabar perdendo o dia de trabalho.
Seu tom era tranquilo e seguro, junto a sua beleza e excelente bom gosto para moda, fazia aquela situação dela tão perto de mim falando diretamente comigo ser meio diferente do que eu havia imaginado.
Ela me irritava e me intrigava aquilo era fato, porém ali, era quase como se eu estivesse na presença de uma celebridade, como se eu tivesse que me certificar a todo tempo de que aquilo era real, de que sim eu estava sentada ao lado de Regina Mills e ela estava me explicando sobre o trabalho, trabalho esse que íamos fazer muito mais próximas do que eu havia achado e desejado.
Não era como se eu fosse uma fã ou algo assim, mas dava um certo nervoso na boca do estômago e uma vontade de desvendar o que tinha por trás daquela muralha.
Enquanto ela ia falando eu anotava coisa ou outra em meu caderno e depois de explicar tudo nos mínimos detalhes me fez repetir algumas delas, Regina sorriu de canto satisfeita engoliu a seco se levantou e foi até o frigobar e pegou uma garrafinha de água com gás.
- Pode se servir do que quiser quando quiser – disse após colocar o líquido em um copo – normalmente tem água com gás, normal, suco da fruta que a Rose minha secretaria trás fresco todo o dia… tem também iogurte, chá gelado e água de coco, se quiser algo de diferente fale com a Rose que ela providencia, a mesma coisa com as capsulas da cafeteira, depois da uma olhada nas que tenho aqui e se quiser outros sabores, fale com a Rose… bem já as bebidas alcoólicas… – olhou para o bar e voltou para mim – seja extremamente moderada, não quero uma bêbada trabalhando ao meu lado. – como na maior parte do tempo em que estivemos ali eu apenas afirmei – você fala bem menos do que eu esperava – comentou ao se aproximar.
- Na verdade não sei se isso é um fato, mas eu não tenho o que dizer já que estamos tipo em uma aula e a senhorita Mills não me parece muito receptiva para comentários enquanto explica as coisas.
- Menina esperta – sorriu de leve.
- Mas isso também não quer dizer que eu não o vá fazer… é apenas o primeiro dia, preciso saber onde estou pisando – pisquei e sorri achando graça de sua sutil revirada de olhos.
- Vem, levante-se – ignorou o que eu disse - vou te apresentar as equipes e te mostrar tudo.
Fui apresentada a todos os colaboradores da Swan Mills, confesso que achei que meu pai faria questão de fazer aquilo, mas bem… não foi de todo mal Regina tê-lo feito, ela era… simpática com as pessoas, como eu de fato não a conhecia achei surpreendente a forma com que se comunicava com os funcionários, sorriu para eles, fez algumas piadas, recebeu muitos elogios com seu terno vermelho, teve até gente insinuando que ela havia se vestido daquela forma para mim.
- Dona Regina a senhora está um arraso hoje – disse a senhora da cafeteria do pátio central – o melhor para a dona Emma!
- Que isso senhora Beverley, não diga isso na frente da menina ela já é muito convencida, imagina só se acredita em algo assim vou ser obrigada a mandá-la aqui para a senhora ensiná-la boas maneiras. – piscou para ela já eu estava num misto de vergonha e indignação, como assim de onde ela tirou que eu era convencida?
O resto do dia passou rápido, em questão de trabalho Regina era mesmo muito centrada, me explicava com clareza e fazia questão de saber se eu estava mesmo entendendo. Aquele primeiro dia foi mais proveitoso do que eu havia imaginado, não houve discussões ou atrito entre nós, foi tudo tranquilo na base do profissionalismo, talvez Regina fosse mais fácil de ser desvendada do que eu imaginava.
Cheguei em casa exausta e estranhamente feliz, tirei os sapatos o blazer, abri uma cerveja e praticamente me joguei no sofá, tomei aquela long neck quase toda de uma vez já pegando outra.
Queria muito poder compartilhar aquele dia com minha mãe, suspirei ao lembrar de seu sorriso olhei para cima como se ela estivesse ali e a brindei.
Logo busquei meu celular em minha pasta, fui para a varanda, me acomodei no sofá suspenso e resolvi ligar para Zelena.
- Oi Zel! Tá ocupada?! – falei assim que ela atendeu
- Oi querida, estou no plantão, mas estou no horário livre… pode falar.
- Quer que eu ligue em outro momento?
- Não, ainda tenho tempo, vai me conta como foi seu primeiro dia na construtora!
- É… foi melhor do que esperava.
- Regina se comportou direitinho?
- Estranhamente sim… quero dizer é claro que recebi algumas reviradas de olhos e alguns comentários ambíguos, mas no restante… ela foi muito profissional, sabe?… e eu também a vi interagir com os funcionários quando ela foi me apresentá-los – pensei por alguns segundos em como dizer aquilo - ela… ela é diferente com as pessoas do que eu imaginava… ela é legal com elas… então eu tirei a conclusão que o problema sou eu – soltei uma risada nervosa.
- Talvez você tenha razão – ela também soltou uma risada.
- Sua irmã é louca isso sim – resmunguei ao me ajeitar no sofá que balançou um pouco quase deixando minha cerveja cair.
- Mais uma coisa que talvez você também tenha razão.
- Eu já te perguntei isso algumas vezes e nunca obtive respostas, mas vou perguntar de novo… você faz alguma ideia porque ela é assim comigo?
- Olha só, acho que hoje eu tenho alguma resposta para você, mas é apenas minha opinião nada mais que minha opinião. – sua pausa foi maior do que eu esperava.
- Vai fala!
- Acho que de alguma forma não literal… – ela fez uma pausa novamente – quero que entenda que o que vou dizer não é uma verdade e sim um achismo, estamos certas?
- Sim, prossiga.
- Acho que de alguma forma você intimida um pouco ela…
- Impossível!
- É… eu acho que posso estar errada, mas é meio que a única coisa plausível que me vem a cabeça… um certo medo ou receio de te conhecer de fato que a faz se afastar… nossa criação no internato foi feita para nos deixar meio duras sabe? Inatingíveis e completamente aversas a sentir medo por mais que seja completamente contraditório já que era uma criação feita na base do medo… eu não absorvi os ensinamentos como Regina e tive muita sorte de conhecer o Robin logo no primeiro ano da faculdade, ele me ajudou e me ajuda muito nessas durezas que eu fui ensinada desde muito nova… então quando olho para Regina, o que eu vejo é uma fuga brusca por medo do desconhecido… mas tenho certeza que ela não vai resistir a essas suas piadas sem graça e esse seu jeito impulsivo, logo logo toda essa situação vai ser motivo de riso.
- Bons argumentos, mas acho difícil de acreditar que posso causar medo nela – soltei o ar e tomei um gole da cerveja e prossegui - você tinha que ver como ela estava vestida hoje, a roupa exalava poder era literalmente um aviso prévio de não se aproxime.
- E como que uma roupa pode falar isso, Emma? – achou graça.
- Meu olhar artístico vê mensagens em tudo… e a forma que uma pessoa se veste diz mais sobre ela do que você pensa.
- Hum… então tá bom se a senhorita artista tá dizendo então está falado… como eu disse tudo que eu falei é apenas um achismo meu.
- Pode ser que sim pode ser que não… mas vamos deixar a Regina de lado que eu tenho um convite para te fazer… no próximo sábado meu pai vai fazer um jantar para comemorar meu ingresso na Swan Mills e eu adoraria que você estivesse presente.
- O jantar vai ser na mansão?
- Sim – respondi já esperando uma resposta negativa.
- Você sabe que eu evito ao máximo o contato com a Cora… mas eu vou ver se o Robin pode ficar com as crianças no final de semana.
- Eu amaria se eles também viessem.
- Eu sei que sim, mas você sabe da minha situação, sabe que a partir do momento que minha mãe descobrir que eu já sou casada e que tenho dois filhos… eu vou ser banida da família.
- Eu não entendo… você é dona da sua vida, é uma ótima mãe, ótima profissional, tem uma ótima relação com a família que construiu aí, mora longe e mesmo assim tem esse medo da Cora.
- É, Emma… eu tenho sim, minha família é tudo para mim, eles são meu tesouro maior e eu não consigo nem imaginar o inferno que tudo isso pode vir a se tornar se minha mãe descobrir… tenho medo dela fazer alguma maldade sabe?… melhor deixar como está… deixa ela achar que eu sou uma encalhada dedicada ao trabalho que nunca tem tempo para visitá-la.
- Ok… – minha voz saiu meio tristonha – se você vier pode ficar no meu apartamento – mudei de assunto – e antes que diga que sempre fica na Regina, bem… é a minha comemoração acho que sou mais que merecedora da sua presença em minha nova casa.
- Vamos ver…
Conversamos sobre mais algumas coisas antes dela ter que desligar para seguir no plantão.
Minha primeira semana de trabalho na Swan Mills foi bem equilibrada. Regina fez questão de ir impecável todos os dias me mostrando através de suas roupas o quanto ela ainda permanecia querendo um total afastamento entre nós, o que fez nossa convivência naquele período ser completa e estritamente profissional.
Diferente do meu primeiro dia eu vendo o quanto Regina caprichou em seu look eu também não fiquei tão atrás… em minha mente eu havia criado uma espécie de jogo de quem conseguia ir mais poderosa para aparentar ser a mais inatingível… é claro que falhei miseravelmente todas as vezes. Não era de fato uma competição de egos, na minha cabeça era muito mais divertido e engraçado onde eu tentava ser tão inalcançável quanto ela para tentar enxergar as coisas como ela via, para aí talvez eu conseguir entender por que ela era diferente comigo.
Eu não sabia se era comum, mas meu pai ficou bem ausente naqueles dias o que me fez ter que passar quase todo meu tempo com a Regina, não que tenha sido tão ruim, já que trabalhamos muito e ela era uma boa professora, mas teve alguns momentos em que senti falta de jogar uma conversa fora. Está bem que eu almocei todos os dias com a Rose, secretária da Regina, mas não era como se eu pudesse ficar saindo da sala nos tempos livres para bater papo com ela.
Na sexta-feira faltando uma hora para ir embora Rose veio até Regina.
- Bom, a senhora precisa revisar esses papeis e os assinar, não precisa ser hoje, mas já estou os deixando aqui para olhá-los com calma.
- Obrigada Rose. – sorriu sutilmente para ela. – Já está indo?
- Sim, vou só fechar umas planilhas e vou.
- Perfeito, tenha um bom final de semana.
- Obrigada! – já ia se retirar, mas eu a interrompi.
- Rose… – chamei fazendo-a se voltar para mim – Tem algum compromisso para amanhã?
- Não senhora – eu a recriminei por ter me chamado de senhora – Não Emma… – sua voz saiu risonha – meus planos para amanhã era pizza e filme.
- Era! Não é mais! Você está sendo solicitada ao meu jantar de comemoração ao meu ingresso na Swan Mills.
Seus olhos se arregalaram e passaram pelos de Regina antes de voltar aos meus.
- É… – ela estava sem palavras – eu não sei…
- Hei! Está tudo bem, é apenas um jantar na mansão do meu pai, vamos comer, beber, falar de trabalho… – coloquei uma mão na lateral de minha boca como se quisesse que só ela me ouvisse – e eu conto com você para me ajudar a fugir do papo de trabalho – sorri para ela tentando lhe passar segurança – não vai ser nada demais… e bem… você foi a primeira pessoa que me conectei aqui dentro, então eu gostaria muito de ter você lá comigo.
- Está bem… – sorriu envergonhada
- Eu te passo todas as informações por mensagem.
- Ok… – sorriu novamente para mim, mas logo se voltou para Regina
- Está liberada.
- Até mais. – disse antes de se retirar.
Olhei para Regina que parecia me analisar, confesso que já estava esperando por algum desaforo, mas ela nada disse.
- O que foi? – perguntei com receio da resposta.
- Nada – sorriu com um leve revirar de olhos – seu jantar seus convidados.
- Só vai dizer isso? – Ela deu de ombros.
- Eu gosto da Rose, tanto que ela é minha secretária desde sempre… eu particularmente não acho que ela caiba nesse evento… mas como eu disse seu jantar seus convidados.
E mais uma vez eu fui pega de surpresa, aquele jogo de tentar adivinhar o que ia acontecer estava cada vez melhor.
Me levantei após alguns minutos. Fui com calma até o frigobar retirei uma long neck, a abri, dei alguns goles e me virei para Regina que me olhava curiosa com minha atitude.
- Quer uma? – ofereci.
- Não… mas aceito uma dose de whisky com duas pedras de gelo. – sorri em resposta novamente surpresa com a sua.
Logo voltei para mesa lhe entregando o copo que foi aceito com um leve sorriso de agradecimento e uma oferta de brinde.
- Bem vinda a Swan Mills.
Seu brinde foi simples, palavras ditas por todos que conheci na Construtora, menos por ela até aquele momento… seus olhos mostravam que ela estava mesmo dizendo aquelas palavras com verdade… e que por mais que ela tenha levado toda aquela semana para me dizer aquilo, ali naquele simples gesto eu senti que finalmente Regina havia aceitado o fato de que trabalharíamos juntas.